Primeira etapa de montanha logo ao 4º dia, um clássico no Giro! Será que algum candidato da classificação geral vai arriscar tentar fazer diferenças neste terreno acidentado?
Percurso
Primeiro dia de montanha no Giro e logo com 3650 metros de desnível acumulado positivo! T0da a etapa é complicada, começa com 3 subidas não categorizadas nos primeiros 30 quilómetros, que servirão de aperitivo para a parte principal. O Passo delle Crocelle (13,5 kms a 4,3%) é a primeira subida, é longa, não muito dura mas servirá para o primeiro desgaste do pelotão.
Segue-se uma longa descida, uma pequena fase de plano antes de nova subida não categorizada, desta vez o Muro Lucano (5,1 kms a 5,5%), subida que leva até ao sprint intermédio do dia e ao sopé de Valico di Monte Carruozzo (8,8 kms a 4,9%). O topo desta subida fica a 65 quilómetros da chegada, de forma muito rápida os ciclistas fazem 15 quilómetros de descida e 35 quilómetros de falso plano até ao sprint bonificado do dia, localizado a 15 quilómetros da meta. Este ponto de interesse será o começo do animar da parte final, pois logo de seguida surge o Colle Molella (9,7 km a 6,1%). Esta é uma subida que engana já que os derradeiros 4400 metros são a 8,8%. Ultrapassada a subida restam somente 3 quilómetros planos até à meta no Lago Laceno.
Táticas
Amanhã parece-me que estão reunidas as condições perfeitas para uma fuga vingar, uma leitura que também é suportada pelo histórico dos últimos anos e pela clarividência que há nas Grandes Voltas. Em 2022 a primeira etapa de montanha foi também a 4ª, ninguém quis assumir a rosa, Kamna ganhou e Lopez ficou com a liderança, em 2021 a mesma situação, também ao 4º dia, rosa para Alessandro de Marchi e em 2020 Jonathan Caicedo ganhou na 3ª jornada, também na fuga.
Neste momento no Giro já temos um grande candidato na liderança, Remco Evenepoel, e com uma vantagem bem agradável, que tem tudo para ser ampliada daqui a uns dias, a situação é perfeita para a Soudal, que só tem de manter o seu líder bem protegido. Manter a rosa não é propriamente do seu interesse, o símbolo de liderança implica mais desgaste a médio prazo, menos tempo de recuperação com subidas ao pódio e todos os compromissos com a imprensa que daí advêm.
Por outro lado, existe outra coisa em jogo, é que para blocos mais fortes como a UAE Team Emirates ou a Ineos-Grenadiers é do seu interesse manter o maior número de ciclistas possível relativamente perto da liderança, para poder eventualmente jogar com isso mais tarde, não seria muito inteligente trabalhar o dia todo para potencialmente Evenepoel cavar um fosso ainda maior. E da parte da Jumbo-Visma não faz muito sentido estar a desgastar o bloco (já de si bastante fragilizado) para a possibilidade de Roglic ir buscar 4 segundos de bonificação. A única hipótese que eu vejo é alguém perseguir para tentar manter o ónus da rosa na Soudal, algo que é altamente improvável, só que num grupo restrito e numa subida de 4 kms a 8,8% na teoria Roglic tem alguma vantagem sobre os restantes
Portanto, o cenário que vejo como mais provável é amanhã ser um dia de jogar na expectativa, onde os principais blocos não estão para se desgastar muito até aos 30 kms finais e a equipa que tem a rosa até poderá tentar perder esse símbolo de liderança. A parte inicial da etapa tem algumas colinas interessantes para se formar uma fuga minimamente forte na média montanha e com alguns nomes relativamente conhecidos, mas não pode ser ninguém muito “mainstream”. Depois o mais provável é que o futuro dono da camisola rosa seja diferente do vencedor da etapa, que se irá aproveitar desse facto. É um dia de arriscar um pouco, acho que para futuro camisola rosa temos de procurar alguém que esteja perto na geral, que não represente um perigo e que seja de uma equipa sem grandes ambições aqui. Para a vitória na etapa alguém que já esteja um pouco mais longe, mas que não tenha perdido tempo por incapacidade física, mas por estratégia ou circunstâncias da corrida, alguém que até pode ser de uma equipa com ambições, mas que dê liberdade.
Existe ainda uma outra hipótese, que está dependente da leitura presencial da corrida que eventualmente Remco Evenepoel tenha feito. Caso o belga se sinta mesmo muito bem e tenha detectado alguma debilidade em Roglic nesta fase inicial da corrida, a Soudal-Quick Step pode forçar o ritmo para tentar causar diferenças, será muito improvável
Favoritos
Rein Taaramae – Tem o perfil perfeito para esta etapa, é um ciclista muito experiente que já sabe o que é ganhar nas Grandes Voltas e inclusivamente no início das Grandes Voltas. Tem tido resultados interessantes na montanha esta temporada, já se encontra a mais de 8 minutos na geral e está numa formação que não tem um grande líder ou grandes ambições.
Jonathan Caicedo – Como já foi referido em cima, sabe bem o que é ganhar numa primeira semana de Giro, hoje perdeu mais tempo do que seria suposto quando ficou para trás a ajudar Magnus Cort. Ficou na retina a boa subida que fez recentemente no Tour de Romandie no apoio a Simon Carr, o que denota que está a subir bem, para além disso não tem uma má ponta final.
Outsiders
Nicola Conci – Iniciou muito bem a temporada em Portugal, depois perdeu algum gás, parece que ainda tem mais para dar. Hoje passou bem as colinas e esteve presente no final para ajudar Kaden Groves. Não representa um perigo para as outras equipas e está já a quase 3 minutos na classificação geral.
Samuele Battistella – Um enorme talento que parecia estar a despontar e que se apagou dentro de uma Astana que também não está a andar por aí além. No entanto tem aparecido muito a espaços e pode virar aqui a página de um ano complicado, está a uma distância boa para ir para a fuga.
Will Barta – A minha primeira escolha para camisola rosa no final do dia de amanhã. A Movistar não tem um grande líder e seria bom para a exposição colectiva dos patrocinadores e para a equipa aparecer bastante na frente do pelotão. Está apenas a 1:33 da liderança, vem em boa forma do Tour de Romandie e não é visto como uma ameaça no geral.
Possíveis surpresas
Primoz Roglic – Num cenário em que os favoritos disputam este final o esloveno tem de ser considerado um bom candidato, tem um poderoso sprint final como se viu hoje também e coloca-se muito bem, para além disso as subidas são boas para ele.
Remco Evenepoel – Nunca se sabe, devido ao que explicámos nas tácticas, para nós seria uma surpresa. Mas…parece ter entrado perto dos 100% neste Giro, não tem um sprint assim tão mau e a confiança está em alta.
Tao Hart – Excelente ponta final em grupos reduzidos e depois de uma etapa complicada, pode não estar tão longe do nível de Roglic e Evenepoel num final destes.
João Almeida – Pode tentar surpreender e será por aqui que pode ganhar segundos, num sprint está uns furos atrás dos 3 acima mencionados.
Thibaut Pinot – Está visivelmente repleto de confiança, sem grande pressão e solto, a andar muito bem. Não é visto como um perigo para a geral, não seria totalmente surpreendente amanhã vê-lo a atacar.
Carlos Verona – Fez um Tour incrível no ano passado, será que está na mesma forma e que perdeu tempo propositadamente para poder entrar na fuga já amanhã?
Edoardo Zambanini – Capaz de um grande resultado quando menos se espera, será o único Bahrain com liberdade para ir para a fuga e capacidade física para lutar nela.
Bob Jungels – Já perdeu muito tempo e mesmo não estando na melhor forma não é ciclista de ficar parado, numa fuga é muito perigoso.
Jonathan Lastra – Não é um puro trepador, longe disso, no entanto já mostrou em certas ocasiões que consegue andar bem na montanha no World Tour, não esteve nada mal no País Basco.
Lorenzo Rota – Mais discreto nos últimos tempos perdeu algum tempo por algum motivo e a razão pode ter sido este dia.
Stephen Williams – De repente foi 8º em Frankfurt quando nada o fazia apontar, é um corredor de tudo ou nada, pode até entrar para a fuga e ser o primeiro a ficar para trás, mas é capaz de grandes momentos de surpresa.
Warren Barguil – Perdeu tempo hoje de forma desapontante, o gaulês não é de ficar de braços cruzados, as principais equipas sabem que não está para jogar a geral.
Harm Vanhoucke – De vez em quando a DSM saca um grande coelho da cartola e revela ou confirma um grande talento, será que temos aqui um segundo Michael Storer?
Super-jokers
Os nossos super-jokers são Giovanni Aleotti e Vincenzo Albanese