Última competição do World Tour na Austrália, desta vez para a 7ª edição da Cadel Evans Great Ocean Road Race (CEGORR). É uma clássica com vários desfechos possíveis e que será vista como muitos ciclistas como uma possibilidade de salvar um Tour Down Under que não correu bem.
Percurso
A corrida começa com uma volta pela zona de Geelong, antes do circuito final há mais de 100 kms a percorrer, relativamente planos, que servem de aquecimento para o que aí vem. 4 voltas ao circuito final, o mesmo que a decidiu esta madrugada a prova feminina, com o triunfo surpreendente de Loes Adegeest.
O circuito tem praticamente 17 kms e conta com 2 colinas bastante duras, a que mais diferenças poderá fazer é Challambra Crescent (1000 metros a 8,7%), foi aqui que Gilbert atacou para ser campeão mundial, é uma colina algo irregular, feita por patamares, onde o ácido lactico se acumula até às rampas finais de 14%. O topo está a cerca de 9 kms da meta e segue-se uma rápida descida antes de Melville (600 metros a 8,3%). Como os ciclistas vêm muito rápido e as primeiras rampas não são muito agressivas só passam verdadeiramente 30 a 45 segundos em grande esforço em inclinações acima dos 10%. O acesso à meta é muito rápido, feito em ligeira descida, se houver um sprint em pelotão reduzido será certamente muito rápido.
Tácticas
Habitualmente esta corrida acaba num sprint em pelotão reduzido (20 a 30 ciclistas). A excepção foi precisamente a última edição, onde Dries Devenyns bateu Pavel Sivakov num sprint a 2. Este ano vamos ter um pelotão bastante reduzido já por si, algumas formações já foram para a Europa, serão 98 ciclistas à partida.
A batalha neste percurso é quase sempre a mesma, os sprinters e as suas equipas vs as equipas que não têm sprinters e precisam de atacar. Depois do que aconteceu no Tour Down Under a responsabilidade e pressão está em cima da Jayco, vão querer ganhar em casa e trazem os líderes para conseguir isso, mas não vemos muito mais equipas com capacidade de perseguição para homens rápidos, talvez consigam a aliança da Trek-Segafredo e com sorte da Ineos (se acreditar em Hayter) e da EF (se acreditar no sprint de Bettiol).
No outro espectro estão a Ag2r (que certamente vai endurecer a corrida ao máximo porque O’Connor tem de atacar), a Quick-Step, que não tem nenhum corredor propriamente rápido em grupos de 20/30 e a UAE Team Emirates, que conta com Vine, mas que poderá usar a superioridade numérica já que as subidas não permitem fazer tantas diferenças.
Achamos que a corrida dependerá da maneira de agir da Ineos, da UAE e da Jayco. A Ineos porque Hayter tem um bom sprint, mas não mostrou grande coisa no Tour Down Under, a Jayco porque tem de decidir se Matthews responde a ataques ou espera que Yates faça sabotagem dos grupos que se formem e a UAE porque vem com 4 boas opções para este traçado, só que só com uma boa coordenação podem triunfar.
Favoritos
Michael Matthews – Será o favorito mais consensual, pode estar na discussão em vários cenários, num grupo de 30 é um dos sprinters mais fortes, e desses sprinters é dos poucos que estará num grupo de 10. Colinas destas adequam-se muito melhor às características de Matthews do que as subidas do Tour Down Under e o facto de ser uma clássica também lhe dá vantagem. A estratégia deverá ser a mesma do Tour Down Under, deixar Yates ficar de olho em corredores como Vine ou O’Connor, Matthews marca outro tipo de ciclistas e resguarda-se mais. Diria que, devido ao que aconteceu na semana passada, é o corredor mais motivado do pelotão para ganhar aqui.
Sven Erik Bystrom – É um bocadinho rebuscada a sua presença nesta categoria, mas para mim preenche vários requisitos. Está em grande forma, foi recentemente 7º no Tour Down Under, e mostrou várias vezes que em grupos pequenos tem um sprint muito perigoso. Anda quase sempre bem no início da época e a Intermarche-Wanty-Gobert está num grande momento com 2 vitórias em Espanha. É muito completo, rola bem sozinho e o facto de não ser dos ciclistas mais marcados é bom para ele.
Outsiders
Alberto Bettiol – Começou bem a temporada, venceu o prólogo com alguma sorte, o desgaste do calor australiano passou-lhe factura e foi depois 2º em Willunga. O italiano tem um sprint bem melhor do que parece, principalmente no final de uma clássica destas, que vai de encontro às suas características.
Corbin Strong – Um corredor da casa com um potencial tremendo. Já no Tour Down Under a equipa trabalhou para ele, só que uma queda na altura errada estragou-lhe os planos. Dos sprinters que melhor passa as subidas, quer vingar o que aconteceu e conta com 2 ciclistas que conhecem esta corrida como poucos: Simon Clarke e Daryl Impey.
Marc Hirschi – Aplica-se aqui o mesmo que dissemos relativamente ao Tour Down Under, se o suíço voltar ao nível de 2020, pode perfeitamente ganhar aqui, na altura deslumbrou nas clássicas das Ardenas e estas colinas têm parecenças. Esteve bem nos últimos dias, mesmo ao serviço de Jay Vine foi 11º na geral, esteve sempre lá nos momentos importantes.
Possíveis surpresas
Mauro Schmid – Uma clássica destas assenta muito melhor ao suíço do que o Tour Down Under, e mesmo aí já deu boas indicações, é quase certo que vai atacar e tentar de longe e nessa caso é um corredor bem perigoso.
Caleb Ewan – Em anos anteriores já esteve na luta, ele passa muito, muito bem este tipo de subidas. O problema é que está aqui com a selecção nacional, não com a Lotto. Não vai contar com grande ajuda e ninguém o vai querer levar para a meta. Caso esteja no grupo que dispute a vitória é quase certo que ganhe.
Mikkel Honoré – Foi contratado pela EF para substituir Ruben Guerreiro precisamente neste tipo de corridas, que vão de encontro às suas qualidade. Uma queda a abrir o Tour Down Under deitaram as suas chances ao chão, focou-se na montanha e parece até estar com boas pernas, já deve estar recuperado.
Ethan Hayter – Sempre uma pequena incógnita, não nos parece estar com a condição física necessária para ganhar. Até tem um bom sprint, não é muito explosivo a subir.
Magnus Sheffield – Vencedor da juventude no Tour Down Under, mesmo ligeiramente afectado por uma queda, as feridas já tiveram tempo de sarar e o vencedor da Brabantse Pijl de 2022 tem aqui uma boa oportunidade, só que precisa de arranjar maneira de seguir isolado para a meta, não é nada fácil.
Antonio Tiberi – Uma das boas confirmações deste Janeiro, o italiano mostra tem os pés bem assentes na terra, correu muito bem tacticamente a semana passada potenciou ao máximo o seu resultado.
Jay Vine – Seria preciso uma exibição supersónica do australiano, receio que estas colinas não tenham a extensão suficiente para ele fazer as diferenças.
Simon Yates – Só pode ganhar no mesmo cenário do Mount Lofty, destacar-se na companhia de Vine e outro corredor, não colaborar com a desculpa de Matthews e aproveitar a energia extra para sprintar melhor.
Marco Haller – Capaz de sacar um grande resultado de vez em quando, veja-se o que aconteceu no ano passado na Clássica de Hamburgo e numa etapa da Volta a Noruega que tinha colinas parecidas a estas.
Emils Liepins – Pode ser daqueles sprinters que passam despercebidos e que depois consegue uma enorme surpresa. Fiquei muito impressionado com o letão no Tour Down Under, teria feito pódio na etapa que Coquard ganha não fosse um toque de Bettiol.
Super-Jokers
Os nossos Super-Jokers são Luke Plapp e Natnael Tesfatsion.