Está aí o primeiro Monumento da temporada! “La Primavera” marca o início de uma das fases mais preenchidas da temporada, onde se espera muita emoção e espectáculo.
Percurso
Com praticamente 300 quilómetros, a Milano-Sanremo é a prova mais longa da temporada velocipédica. Voltando à sua data tradicional, o percurso mantém-se praticamente inalterado, com excepção da saída do Passo del Turchino, devido a obras. Por sua vez, foi adicionado o Colle dell Giovo.
È a partir dos 245 kms que as coisas complicam, com a entrada nos Capos. Ao km 247,6 o Capo Mele (1,9 kms a 4.2%), ao km 252,6 o Capo Cervo (1,9 kms a 2.8%) e o mais complicado surge ao km 260,4, o Capo Berta tem 1700 metros a 7% de inclinação média.
Depois vem outra fase da corrida, a entrada na Cipressa, que é praticamente a derradeira oportunidade de deixar sprinters para trás, principalmente devido ao comprimento da subida, com 5600 metros, já que a inclinação média é somente de 4,1%.
Por fim temos o Poggio, 3600 metros a 3,7% apenas a 5,5 kms da meta, parece fácil mas depois de 285,5 kms qualquer inclinação na estrada custa. Segue-se uma descida rápida e técnica, onde também se podem fazer diferença, antes da sempre dramática recta final.
Tácticas
A Milano-SanRemo é uma corrida que se costuma resumir aos 30 kms finais e à sequência Cipressa-Poggio. Bom, na verdade tudo até se decide geralmente apenas no Poggio, mas muitas vezes a forma como a corrida decorre até lá, nomeadamente a velocidade, impacta no que acontece no Poggio.
O clima tem, por vezes, influência no resultado final. Este ano as previsões apontam para vento de cauda na Cipressa, e predominantemente de cauda também no Poggio, o que aparentemente favorece os atacantes e prejudica os sprinters, que gostariam de um forte vento frontal.
Neste momento todos falam no “Big 3”: Mathieu van der Poel, Wout van Aert e Julian Alaphilippe, mas principalmente os 2 monstros que vieram do ciclocrosse. Não há memória de ver ataques tão devastadores como os de Mathieu van der Poel, para além da audácia de atacar de longe do holandês e a capacidade de Wout van Aert de ganhar etapas ao sprint, contra-relógios e andar com os melhores na alta montanha é deveras impressionante.
Do que vimos até agora Mathieu van der Poel é o mais explosivo em ataques a subir, enquanto Wout van Aert talvez tenha ligeira vantagem num sprint em massa, vantagem que é ligeiramente anulada pela extensão da prova. Mathieu van der Poel e Wout van Aert estarão confiantes que conseguem bater qualquer um e que conseguem ganhar um ao outro num mano a mano.
Estes 2 ciclistas têm revolucionado o ciclismo e o modo de correr neste último ano, farão o mesmo a este monumento tão clássico? O vento frontal no Poggio e de cauda na Cipressa pode levar a que haja mais ataques de longe para afastar os puros sprinters, especialmente de equipas que não tenham um. A questão é se Mathieu van der Poel vai explodir a corrida na Cipressa. Cremos que não, o holandês tem um imenso instinto ofensivo, mas nas grandes corridas costuma conter-se um pouco e esperar pelo momento decisivo. Com os watts que consegue produzir, mesmo com vento frontal, pode rebentar com a prova no Poggio.
Favoritos
Sempre que Wout van Aert esteja presente na Milano-SanRemo, esteve na discussão da corrida. 6º em 2019 num grupo de elite, vencedor em 2020 após ser o único capaz de responder a terrível ataque de Julian Alaphilippe. Wout van Aert terá de estar colado à roda de Mathieu van der Poel na Cipressa e no Poggio e seguir todas as pisadas do holandês e colocar em prática toda a sua capacidade no sprint final.
Já esperamos tudo de Mathieu van der Poel e vamos ver o que está à espera dos fãs da modalidade amanhã, não é totalmente descabido que ataque na Cipressa para fazer uma primeira selecção, apesar de poder ficar mais exposto. No ano passado ficou fora do top 10, mas na altura não estava tão bem fisicamente e este ano chega aqui em grande forma. Atenção que no ano passado bateu Wout van Aert no sprint do Tour des Flandres.
Outsiders
Já com 4 vitórias no bolso, Sam Bennett chega à Milano-SanRemo em grande forma, e é dos poucos capazes de bater os 2 monstros num sprint. O irlandês sabe que esta é uma oportunidade de ouro, tem 30 anos e fez uma preparação sem problema, está a subir melhor do que nunca, e Julian Alaphilippe pode atrapalhar um ataque de Wout van Aert e Mathieu van der Poel.
Outro ciclista que está verdadeiramente a voar neste início de época é Christophe Laporte, que esteve por 2 vezes no pódio do Paris-Nice, perdendo sprints para Primoz Roglic e para Magnus Cort. A condição física está lá, senão não teria sido capaz de integrar o primeiro grupo nesses 2 dias. Não é propriamente um grande finalizador, um puro sprinter, mas após 300 kms tem pernas para fazer coisas bonitas.
Como já referimos, face à emergência de Mathieu van der Poel e Wout van Aert, há equipas que sabem que têm de fazer algo de muito original, e uma dessas equipas é a Ineos Grenadiers. Nem a Jumbo-Visma nem a Alpecin-Fenix terão propriamente muita força de perseguição, e com o vento de cauda na Cipressa não seria descabido pensar numa ofensiva de onde poderia sair um triunfo épico de Filippo Ganna, se lhe derem 20/30 segundos que seja podem só voltar a vê-lo depois da linha de meta.
Possíveis surpresas
Não há muitos cenários onde Julian Alaphilippe possa ganhar, será muito complicado bater Van der Poel e Van Aert ao sprint, só mesmo se os seguir quando a corrida explodir e depois atacar na descida ou aproveitar um momento de desatenção/descoordenação. A Quick-Step ainda tem uma carta muito interessante para um grupo de 20 unidades, de seu nome Davide Ballerini, que sobe melhor do que Sam Bennett. Muitos dos sprinters que costumam andar bem aqui não estão nas melhores condições, Peter Sagan está longe da sua melhor forma após a paragem forçada para quarentena, Arnaud Demare está claramente sem as pernas de 2020, Caleb Ewan desistiu do Tirreno-Adriático com problemas estomacais (ainda assim pode já estar recuperado), Giacomo Nizzolo não parece a 100% e Pascal Ackermann dificilmente sobreviverá. Quem está bem dos sprinters? Alexander Kristoff continua a ser um grande perigo (1º em 2014, 2º em 2015, 4º em 2017 e 2018) e integrou o primeiro grupo na Omloop, Nacer Bouhanni está a subir até muito bem e costuma dar-se bem em provas longas e Elia Viviani está no seu melhor momento desde que entrou na Cofidis. Depois há os homens rápidos que estão longe de serem puros sprinters, num grupo de 20/30 podem perfeitamente fazer pódio, corredores como Michael Matthews, Matteo Trentin, Jasper Stuyven, Soren Kragh Andersen e Andrea Vendrame. Depois há ciclistas que têm de fazer alguma coisa para evitar o habitual sprint final e que estão a andar bem: Matej Mohoric, Alex Aranburu, Michael Gogl ou Quinn Simmons. Infelizmente o duo da Ag2r Citroen composto por Greg van Avermaet e Oliver Naesen não está propriamente a 100%.
Super-Jokers
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