Depois das clássicas voltamos às provas por etapas, o Tour de Romandie tem 6 etapas e 2 delas são lutas contra o cronómetro, que contrastam com 2 chegadas em alto. A UAE tem o campeão em título e um alinhamento de luxo, é a grande favorita para conquistar a prova helvética. Ivo Oliveira e Nelson Oliveira são os portuguesas presentes.
Percurso
Prólogo
2300 metros altamente sinuosos e até perigosos vão dar o pontapé de saída da prova por etapas helvética. Diria que adivinhar o resultado vai ser como tentar adivinhar os números do euromilhões até porque está previsto muito frio, vento e até há a possibilidade de alguns aguaceiros, a ordem de saída será muito importante.
Etapa 1
Uma voltinha ao redor de Friburgo, este ano há 2 etapas de média montanha, este é uma delas e uma chance para os sprinters que passam bem as subidas. Cada volta ao circuito tem 40 kms e contém 2 subidas categorizadas, 700 metros a 12,7% e 1800 metros a 7,3%, o cenário mais previsível é o de um sprint em pelotão mais reduzido.
Etapa 2
Primeira de 2 chegadas em alto, e neste dia temos a subida mais curta e mais explosiva, com 7,6 kms a 7,5%. São apenas 2700 metros de desnível, é um dia acessível e onde não se prevê grandes diferenças até porque os últimos 600 metros têm 10,7%, o que pode afugentar alguns aventureiros com medo dessas rampas finais.
Etapa 3
16 quilómetros de contra-relógio individual onde praticamente não há um metro plano, a parte inicial contém 1800 metros a 6,5% e a parte final é muito rápida, aqui podem-se fazer mais diferenças do que na montanha anterior entre os candidatos à vitória final.
Etapa 4
A jornada mais dura desta edição, com 3500 metros de acumulado e subidas bem complicadas, pena que Ovronnaz (9,1 kms a 9,5%) esteja tão longe da meta, ainda que possa ser uma rampa de lançamento para as equipas colocarem homens importantes na fuga. Não creio que aquele encadeado intermédio faça grandes diferenças ou impulsione grandes mudanças ficando tudo para Leysin (13,8 kms a 6%). À primeira vista não são números que impressionam, até é uma montanha algo rolante. Existem algumas rampas mais difíceis logo a abrir (2 kms a 7,5%) e depois quase a terminar (4 kms a 7,4%), a surgirem ataques deve ser nestas zonas.
Etapa 5
A ideia da organização em fazer uma etapa destas a fechar a corrida ou resulta muito bem ou muito mal, ou temos uma etapa calma que acaba num sprint ou as equipas dão tudo para partir a corrida logo de início, é que este circuito não tem assim tanta dureza, tem muitas colinas, mas as mais duras são 1,6 kms a 4% e 1 km a 4,8%, na minha perspectiva exigia-se mais.
Táticas
Geralmente esta é uma corrida com uma lista de participantes interessante, com alguns ciclistas importantes, até porque quem fez as clássicas muitas vezes quer um descanso, quem vai ao Tour pode estar em estágio e pode ser considerada muito em cima do Giro para quem quer entrar na prova italiana a 100%. Acho que o contra-relógio da 3ª etapa vai marcar muito esta edição e que o percurso é fraquinho, na verdade são 2 contra-relógios, 2 etapas de média montanha até acessíveis e 2 chegadas em alto sem muito por onde pegar.
A UAE Team Emirates é claramente a força dominante e o bloco a bater, aquele que também tem mais responsabilidade. Primeiro porque tem imensas opções (Yates, Ayuso, Sivakov, McNulty), segundo porque é uma das equipas do momento, tem o vencedor do ano passado e o último vencedor de uma corrida por etapas do World Tour. Yates e Ayuso também já demonstraram que andam bem em contra-relógios deste género, portanto a escolha que a UAE tem de fazer é se joga com a força dos números ou se controla/domina a corrida em prol destes 2 líderes, andam as estratégias têm os seus riscos associados. No jogo dos números a Ineos e a Bora também têm algumas boas opções, a Jayco aí corre um pouco mais por fora.
Favoritos
Juan Ayuso – O espanhol parece estar finalmente a encarrilar e o triunfo obtido na Volta ao País Basco foi certamente um catalizador de confiança para o que aí vem. No ano passado esteve cá, ganhou o contra-relógio e depois quebrou no Thyon 2000, normal porque estava a voltar à competição, mas esse triunfo no esforço individual é importante. O espanhol por vezes tem desempenhos incríveis e pode controlar a competição depois disso a partir da frente.
Adam Yates – Sinto mesmo que a UAE tem a faca e o queijo na mão, talvez a liderança se decida em grande parte no contra-relógio se não houver diferenças de tempo na primeira chegada em alto. O britânico defende-se muito bem em esforços deste género e tem uma regularidade tremenda em corridas de 1 semana.
Outsiders
Simon Yates – Olho para o ciclista da Jayco e vejo um dos poucos que tem a capacidade de bater a UAE e um dos que vamos mencionar que mais probabilidade tem de ficar fora do top 10, tal é a sua irregularidade. Não foi um início de temporada famoso, depois andou completamente desaparecido na Volta a Catalunha e até fez uma Liege aceitável. Se estiver em boa forma, o traçado é muito favorável.
Aleksandr Vlasov – 5º no Paris-Nice, 4º na Volta a Catalunha, o russo está num bom momento e pelas suas características vai ser um ciclista protegido dentro da Bora-Hansgrohe. No entanto, tenho a sensação que este é o tecto da evolução de Vlasov como ciclista, falta-lhe quase sempre um pontinho para bater os melhores e tem algumas falhas que lhe impedem de ser um candidato a corridas de 3 semanas.
Carlos Rodriguez – Fiquei muito bem impressionado pelo que fez na Volta ao País Basco, foi incrível na última etapa principalmente se tivermos em conta que caiu nessa mesma corrida e teve de levar pontos na mão. É uma das grandes apostas de futuro na Ineos, mas terá de fazer a diferença na montanha e precisa de começar a mostrar sinais de ainda maior evolução.
Possíveis surpresas
Brandon McNulty – Bom contra-relogista, entra para esta categoria e precisa de ser mencionado caso a UAE decida jogar com a força dos números, até porque o norte-americano seria o líder incontestado de muitas equipas caso estivesse nelas.
Ilan van Wilder – Até começou o ano a andar bem, fez 4º no UAE Tour sem ter de estar a trabalhar para Evenepoel, depois entrou em funções de gregários e até nem fez uma má Fleche Wallonne tendo em conta as condições. É alguém que gosta destas etapas de montanha que não são incrivelmente complicadas, é explosivo e tem bom contra-relógio.
Jai Hindley – Vai perder algum terreno no contra-relógio, espero que ande junto dos melhores na montanha e até acho que é um sério candidato ao pódio/top 5 por causa disso, Hindley tem estado muito mais activo nas provas de 1 semana este ano.
Tao Hart – O regresso à competição não correu de feição, ainda não apareceu ao nível exibido em 2022 e 2023, mas espero que a 2 meses do início do Tour já esteja bem melhor, a Lidl-Trek precisa do britânico em boa forma para competir com as melhores equipas. Se já estiver em melhor forma espero um top 10.
Damiano Caruso – O transalpino adora correr na Suíça, foi 2º na Volta a Suíça em 2017, 3º aqui em 2023, é um dos trepadores mais consistentes do pelotão internacional e participando no Giro é muito provável que já esteja em boa forma.
Luke Plapp – O 6º lugar no Paris-Nice foi um grande passo em frente para o australiano que em épocas anteriores mostrou sinais de ser um talento incrível, mas também super inconsistente. Acredito que será um ciclista protegido aqui não obstante a presença de Simon Yates, vamos ver se realmente saltou um patamar na sua evolução.
Alexey Lutsenko – Derrotou a armada da UAE Team Emirates no Giro d’Abruzzo e fez um impressionante top 10 na Liege-Bastogne-Liege, aqui a corrida terá uma dinâmica diferente e tem tendência a perder alguns segundos na etapa 3, para além de não ser um corredor fiável.
Egan Bernal – O colombiano continua a dar pequenas sinais de melhoria, sem ainda ter mostrado os valores do passado, antes do grave acidente que teve. Vai manter o seu espírito e combativo e acredito que vai andar bem, não creio que vá para melhor do que um top 5
Lenny Martinez – É um daqueles corredores que pode surpreender nas etapas de montanha, vem de 2 triunfos em clássicas francesas e de um top 10 na Volta a Catalunha. Acho que ainda não tem nível para estar no pódio final, ainda para mais quando vai perder muito tempo no contra-relógio.
Richard Carapaz – Tem estado a melhorar a olhos vistos a sua condição física, o equatoriano já nos habituou a isso ao longo das últimas épocas, precisa de muitos quilómetros de competição nas pernas, mas também já nos habituou a quebrar quando menos se espera porque vai para além do limite das suas capacidades.
Enric Mas – 12º na Catalunha, 5º no País Basco, até foram resultados melhores do que estava à espera para o espanhol da Movistar, espero mais um sólido top 10, vai ser difícil fazer diferenças na montanha, não é bom contra-relogista e mesmo no prólogo tem tendência a perder alguns segundos.
Guillaume Martin – Candidato ao top 10, ciclista muito regular.
Super-jokers
Os nossos Super-Jokers são: Sergio Higuita e Bart Lemmen