A formação alemã foi subindo paulatinamente nos rankings e agora, mesmo sem algumas das grandes figuras a aparecer, está consolidada no topo. Ao todo foram 3 dezenas de vitórias, quase 10 no World Tour, mas mais do que isso foi o facto de quase sempre serem uma ameaça e apresentarem alinhamentos interessantes.
Os dados
Vitórias: 30 triunfos ao todo, 1 no Giro e 2 no Tour.
Pódios: Um número incrível de 74 pódios durante a temporada.
Dias de competição: 240 dias, uma equipa que também compete várias vezes no circuito continental europeu.
Mais kms: O incansável Cesare Benedetti, que completou 2 Grandes Voltas e totalizou quase 15 000 kms.
Idade média do plantel: 29,2 anos, que passaram para cerca de 27 em 2022, um grande rejuvenescimento.
Melhor vitória: Elegemos a de Peter Sagan no Giro, por todo o esforço colectivo que envolveu a controlar a corrida.
O mais
Não houve propriamente 1 ciclista a destacar-se de sobremaneira, todos tiveram fases mais proveitosas e outras menos boas. Maximilian Schachmann começou muito bem o ano, ganhou o Paris-Nice depois do infortúnio de Primoz Roglic, fez top 10 nas 3 clássicas das Ardenas e foi 4º na Volta a Suíça. Depois disso sofreu um enorme apagão. Kelderman saiu da Sunweb para fazer uma temporada “à Kelderman”, muito consistente, foi 5º na Catalunha, 4º no Dauphine e 5º no Tour, um resultado bastante bom. Pascal Ackermann foi dos mais vitoriosos, com 6 triunfos, ainda que fora do World Tour, sai por causa de divergências com a equipa, que o deixou fora do Tour e, posteriormente, da Vuelta. Ainda logrou alguns pódios na alta roda do ciclismo, que poderiam ter sido mais caso a equipa lhe tivesse dado um calendário adequado. Nils Politt começou bem nas clássicas, depois baixou de forma e apareceu novamente no Tour para levar uma etapa e na Volta a Alemanha para vencer a competição.
O maior destaque, na nossa opinião, vão para os jovens que começaram a aparecer dentro da estrutura germânica, a começar por Jordi Meeus, que até foi escolhido para ir à Vuelta em detrimento de Ackermann. O jovem de 23 anos fez aí 1 pódio e 4 top 10, que completou com mais 4 pódios em semi-clássicas no final do ano. Ide Schelling foi um perigo em todas as corridas com colinas, 4º na Brabantse Pijl, venceu uma clássica na Suíça, foi 5º na Volta a Bélgica e 2º na Volta a Noruega, será certamente encarada com outros olhos daqui para a frente nas Ardenas. Depois de se estrear numa Grande Volta, Giovanni Aleotti teve oportunidade no circuito europeu e não as desperdiçou, ganhou o Sibiu Tour, fez 3º na Settimana Ciclista e 2º no Circuito de Getxo, tendo ainda sido 11º na Volta a Polónia. Por fim, Matthew Walls mostrou-se mortífero, apesar do trabalho que ainda faz em pista. Com uma ponta final impressionante ganhou 1 etapa na Volta a Noruega e a Gran Piemonte.
O menos
Mais uma temporada abaixo das expectativas para Peter Sagan, e as expectativas começam a baixar. A aposta da Bora-Hansgrohe nele terminou em 2021, é um fechar de ciclo marcado por uma campanha de clássicas fraca e por uma etapa no Giro arrancada a ferros. Também ganhou na Romandia e na Catalunha, tendo sido 4º na Milano-SanRemo, ainda assim foi a pior temporada desde que passou a profissional para Peter Sagan, que começou o ano a contrair COVID-19.
Houve trepadores dos quais também se esperava bem mais. Pelo segundo ano consecutivo Emanuel Buchmann arrastou vários problemas de saúde que o impediram de render ao mais alto nível, abandonou no Giro, fez o Tour até ao fim sem aparecer muito, foi uma sombra do que fez em 2019. Felix Grossschartner não manteve o nível de 2019 e 2020, estagnando a sua evolução, é verdade que fez 10º na Vuelta, mas já está num patamar onde se espera mais rendimento e mais consistência ao longo do ano, não é objectivo da Bora-Hansgrohe fazer simplesmente top 10 numa Grande Volta e por isso mesmo também se reforçaram neste campo. Lennard Kamna fez uma época muito estranha e continua a ser uma grande incógnita, ao longo de 2021 fez 2 corridas, a Volta a Catalunha e a Volta ao Algarve, sendo que na primeira até ganhou 1 etapa com muita classe.
O mercado
É um enorme virar de página para a Bora-Hansgrohe, isso é indiscutível. Saem diversos ciclistas que estavam há mais de 5 anos na equipa, começando por Peter Sagan e a sua “entourage”, Juraj Sagan, Erik Baska, Daniel Oss e Maciej Bodnar. Tirando Baska vão todos para a Team TotalEnergies. Michael Schwartzmann e Rudiger Selig vão integrar outro comboio, de Marcus Burghardt ainda não se sabe muito e Pascal Ackermann é outra saída muito significativa, um corredor que há 2/3 anos parecia quase destinado a ser um grande líder de futuro, deixa a equipa de uma forma algo controversa.
Com o orçamento deixado vago por Sagan, Ackermann e companhia, abriu-se uma janela para o regresso de um corredor que já deu muitas alegrias, Sam Bennett. O irlandês chega acompanhado de Ryan Mullen e Shane Archbold e para esse comboio também deve contar o poderoso Marco Haller. No capítulo dos sprinters surge uma grande dúvida, qual será o papel de Danny van Poppel no meio disto tudo, depois da sua melhor temporada de sempre. É que o neerlandês também chega com a companhia de Jonas Koch. Para a montanha, uma formação que já tinha muitas armas e não perdeu nenhuma, conta com a entrada de 3 pesos pesados: Jai Hindley, Aleksandr Vlasov e Sergio Higuita. Muito provavelmente Higuita estará com um foco maior nas clássicas e em provas de 1 semana, Vlasov já tem alguns top 10 em Grandes Voltas e ainda tem margem de evolução, enquanto Hindley é um tiro no escuro em relação à sua capacidade de replicar o que fez no Giro de 2020.
O que esperar de 2022?
Um conjunto fortíssimo, que terá de jogar muito bem entre ter a força dos números e ter demasiados galos para o mesmo poleiro, esse será o maior problema. Vamos por partes, para as clássicas do empedrado a equipa ainda conta com Nils Politt e Marco Haller, que podem fazer alguns top 10, sendo que Danny van Poppel é um nome interessante para as clássicas com o perfil da Gent-Wevelgem, por exemplo.
Para as clássicas das Ardenas, Maximilian Schachmann continuará a ter um papel de destaque, pelo seu histórico nestas corridas e agora terá menos pressão com a entrada de Sergio Higuita, também bastante explosivo. Com a ajuda de Konrad, Aleotti, Schelling e até Gamper, parece cada vez mais um bloco perigoso.
Passando para os sprints, é claro que Sam Bennett será o líder indiscutível, ainda para mais quando também veio Shane Archbold. O neozelandês funciona melhor como 3º elemento a contar do fim no comboio, quem será o 2º? Ainda pensámos na conversão de Walls ou Meeus para esse papel, mas falta-lhes experiência, provavelmente será Marco Haller, que passou boa parte do ano a lançar Phil Bauhaus na Bahrain. Outra possibilidade é a utilização de Danny van Poppel nesse papel, só que o mais plausível é Van Poppel fazer um pouco o papel de Ackermann. Nesse caso outra questão se levanta, que calendário e que oportunidades terão Matthew Walls e Jordi Meeus em 2022? Deram muito boa conta de si este ano e mostraram um potencial tremendo.
Por fim, nas Grandes Voltas está aqui um debate bem interessante. Cremos que podemos retirar desta equação, pelo menos da liderança em Grandes Voltas, os nomes de Konrad, Grossschartner, Higuita e Schachmann, irão ser importantes no apoio, mas o objectivo é fazer pódio ou top 5, nenhum deles tem capacidade para isso neste momento. Sobram Buchmann, uma grande incógnita para 2022, Hindley, aplica-se o mesmo, Kelderman (5 top 10 nas últimas 6 Grandes Voltas que fez) e Vlasov (4º este ano no Giro, mas com debilidades ainda em algumas áreas). Destes 4 nomes grandes a estratégia deverá passar por levar 2 deles ao Giro e 2 deles ao Tour, indo à Vuelta quem esteja ainda em condições e pelas circunstâncias da época. Se tivéssemos que apostar seria Hindley e Vlasov ao Giro e Kelderman e Buchmann ao Tour, até porque a relação entre Hindley e Kelderman não será a melhor e assim conseguem ver como está a condição física de Buchmann antes do Tour.