Foi uma surpresa completa quando, a mais de 200 kms da meta, a França decidiu acelerar bastante o ritmo na subida mais longa destes Mundiais de Wollongong, o Mount Keira. Pavel Sivakov colocou um ritmo diabólico e causou um corte com cerca de 40 ciclistas, numa altura em que a fuga do dia composta por Juraj Sagan, James Fouche, Scott McGill, Pier Andre Cote, Michael Kukrle, Guy Sagiv, Lukasz Owsian, Emils Liepins, Simon Pellaud e Nicolas Sessler tinha cerca de 6:30 de avanço. De notar ainda o abandono de Mathieu van der Poel na primeira passagem pela meta, aparentemente o holandês passou parte da noite australiana na esquadra, tendo sido detido e libertado mediante caução, terá de se apresentar a tribunal na próxima Terça-Feira.



O pelotão ficou então com 40 corredores para a frente (França muito representada, Portugal com Ivo Oliveira e Nelson Oliveira e de registar a presença de Wout van Aert e Tadej Pogacar) e 120 ciclistas para trás (Alaphilippe, Evenepoel, Cosnefroy, Matthews, Girmay). Este segundo pelotão demorou a reagir e enquanto choviam ataques no primeiro pelotão a diferença abriu para os 2 minutos, até que a Alemanha, sem representação na frente, decidiu colocar 2 ciclistas ao trabalho, com uma pequena ajuda da Colômbia. A situação no primeiro pelotão também era insustentável e acabariam por sair do mesmo Pavel Sivakov, Luke Plapp, Ben O’Connor, Samuele Battistella e Pieter Serry (o único que não colaborava).

A cerca de 180 kms da meta o resto do primeiro pelotão foi absorvido e ficaram os 11 elementos da fuga original com 2 minutos sobre os 5 perseguidores e 4 minutos sobre o grupo principal, ainda sem equipa ao comando. A hesitação ainda durou algum tempo e acabou por ser a Holanda e a Espanha, de uma forma inesperada, a pegar nas rédeas do pelotão, numa altura em que os 5 perseguidores já estavam junto dos 11 fugitivos e a diferença já era de quase 8 minutos para a frente.

A corrida manteve-se com esta situação durante várias dezenas de quilómetros até que a França voltou a mexer e formou-se novo grupo intermédio muito perigoso, desta vez com nomes como Remco Evenepoel, Romain Bardet, Quinten Hermans ou Alexey Lutsenko, com a Espanha a manter-se na frente do pelotão a faltar 4 voltas para o final. Dewulf e Senechal sacrificaram-se pelos seus colegas e trabalharam muito para fazer a ponte para o grupo dianteiro, algo que foi feito a 60 kms da meta, com consequente ataque de Remco Evenepoel, o vencedor da Vuelta estava decidido em escapar-se. O pelotão, meio adormecido, vinha a 1:40 e com o passar dos quilómetros as probabilidades de vitória diminuíam, principalmente quando na passagem pela meta já era de 2:07 e apenas a Alemanha trabalhava.



Um ataque de Madouas e uma paragem no grupo dianteiro fez a vantagem baixar para 1:10, crescendo novamente para 2 minutos na descida e à entrada para a penúltima volta Remco Evenepoel arrancou e só Alexey Lutsenko o conseguiu seguir, formando-se um quarteto com Mattias Jensen, Lorenzo Rota, Mauro Schmid e Pascal Eenkhoorn na perseguição. A 25 kms da meta nova ofensiva do belga deixou Lutsenko para trás e o que já se vinha a perspectivar aconteceu, uma aventura a solo de Remco Evenepoel até à meta, enquanto o próprio Wout van Aert atacava e seleccionava o pelotão.

Remco passou na última volta já com 46 segundos sobre Lutsenko e 1:10 sobre Jensen, Eenkhoorn, Schmid e Rota, ainda vinha um grupo a 1:35 e o pelotão a 2:30. O belga continuou o seu contra-relógio individual na volta final, foi alargando a vantagem e, no final, celebrou o triunfo mandando calar os críticos e mostrando que “ele estava lá”. Atrás, Lutsenko foi apanhado já depois da última passagem pelo Mount Pleasant e, a partir daqui, o grupo começou a entreolhar-se entre si.





Isso foi fatal e, já em pleno sprint, o grupo perseguidor foi alcançado pelo que restava do pelotão. No sprint, Christophe Laporte foi o mais forte, conquistando o 2º lugar e a medalha de prata, com Michael Matthews a levar o bronze. Wout van Aert foi 4º e Matteo Trentin 5º. Este grupo chegou a 2:21 de Evenepoel! O melhor português foi Nelson Oliveira em 44º a 3:01. João Almeida foi 60º a 5:16, Ivo Oliveira 83º a 9:31 e Rui Oliveira abandonou.

Ano de sonho para Remco Evenepoel, que junta Liege-Bastogne-Liege, Vuelta a Espanha e Mundiais no mesmo ano, sendo o 4º ciclista da história a vencer um Monumento, uma Grande Volta e o arco-íris no mesmo ano! É, também, o 7º mais novo campeão do Mundo de elites da história.

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