29 de Julho é a data marcada para o início da 82ª edição da Volta a Portugal em Bicicleta. Esperemos todos que essa data se mantenha, vão ser quase 40 dias de ansiedade e incerteza para uma classe profissional que sabe o quão importante esta competição é para o seu futuro.
Com o número de casos positivos ao COVID-19 a subir novamente em Portugal e cada vez mais surtos a aparecer em localidades do interior do país é preciso sermos realistas. É preciso um pequeno milagre para a Volta a Portugal se realizar até ao fim. Obviamente, quando se fez o calendário nacional e, consequentemente, internacional, era necessário dar datas, tanto à UCI como às equipas e aos ciclistas para que houvesse uma preparação adequada para um objectivo tão exigente.
Os acontecimentos dos últimos dias vêm realçar todo o clima de incerteza que paira no ar. Primeiro surgiu o anúncio da Federação Portuguesa de Ciclismo que a Direcção Geral de Saúde aprovou o plano sanitário para a retoma do ciclismo no nosso país, divulgando também o calendário provisório, do qual aqui já falámos.
Dias antes já a UCI tinha publicado um protocolo onde detalha os procedimentos que devem ser seguidos. É um documento altamente burocrático e bastante vago, de onde não se pode espremer grande coisa, um hábito nestas instituições e não menciona sequer consequências directas de um teste positivo durante uma corrida. Daí podemos retirar que a UCI define 3 níveis de pandemia e que, infelizmente, Portugal neste momento está entre o nível 3 e 4, sendo o 4 o mais gravoso. Encaixa-se no nível 4 em termos de casos semanais por 100 000 habitantes, mas não falando no valor de R0, que neste momento se encontra a rondar 1 em Portugal, sendo que 1,5 é a margem para a UCI.
A organização da Volta a Portugal comprometeu-se com a DGS em diversos pontos. Primeiro, todos os atletas, equipas técnicas e staff farão 2 testes, um deles a cerca de 2 semanas e outro a 24 horas do início da prova. Para além das medidas habituais na sociedade hoje em dia como o uso frequente de máscara e desinfecção constante das mãos, serão criadas zonas de acesso restrito, uma zona 0 e uma zona 1, onde só pessoas credenciadas podem entrar. As equipas estrangeiras terão de vir com antecedência para Portugal (não será problema para algumas pois também planeiam participar no Troféu Joaquim Agostinho) e têm de comprovar a realização de testes negativos. A organização também será responsável pela distribuição das equipas pelas unidades hoteleiras.
Logo aqui temos várias questões para colocar. Parece-nos óbvio que caso exista um teste positivo durante a corrida o ciclista em causa sairá da prova, e se esse teste for antes da competição nem irá alinhar à partida. E o resto da equipa? O período de incubação pode chegar às 2 semanas e existe uma % relevante de pessoas assintomáticas e o conceito de “bolha de equipa” praticamente compromete toda a equipa. É impossível distribuir 1 equipa por cada unidade hoteleira e evitar a proximidade dos ciclistas durante a competição.
Isto leva-nos a crer que 1 caso positivo levará praticamente ao fim da corrida, mas claro, este facto não é garantido e depende sempre do entendimento das autoridades competentes e do organizador. E em relação aos testes? As equipas são obrigadas a fazer 2 testes antes da corrida começar aos seus corredores, quem paga estes testes? O mesmo aplica-se para o Troféu Joaquim Agostinho? Podemos ver ciclistas a faltar a esta prova para diminuir o risco de contágio por forma a aumentar a sua probabilidade de estarem presentes na Volta.
Passemos agora para outro ponto interessante e importante: o percurso. A FPCiclismo comprometeu-se com a DGS na redução da distância das etapas e do número máximo de participantes, bem como a colocação das metas intermédias em locais mais remotos para evitar aglomerações. O traçado que estava planeado e desenhado pela equipa da PODIUM teve de ser todo alterado para satisfazer este ponto.
Parece-nos óbvio que a FPCiclismo já suspeitava que iria ter luz verde antes de 20 de Junho e que a PODIUM já tinha algumas rotas alternativas. Só que uma dessas rotas alternativas era precisamente um final de etapa em Viana do Castelo e ontem a Câmara Municipal de Viana do Castelo já veio interditar a passagem da Volta a Portugal no seu território, face “ao desconhecimento da evolução” da pandemia e por entender que “não pode dar sinais contraditórios à nossa sociedade”.
O que fará a PODIUM se mais autarquias tomarem uma atitude destas? Será que 3 ou 4 etapas em circuitos mais fechados e mais fáceis de controlar é uma alternativa viável? Outra grande interrogação é o final da corrida que estava marcado para Lisboa, com um contra-relógio individual. Ora, a situação tem-se agravado nos últimos dias na capital e nos seus concelhos limítrofes, será que a Volta a Portugal chegará a entrar na região de Lisboa e Vale do Tejo caso a situação se mantenha? É que já não há muitos dias para decidir face a este panorama, faltam 5 semanas para a corrida começar e as equipas e ciclistas têm de saber o percurso com alguma antecedência.
Podemos chegar a um ponto em que esta incerteza é ainda pior que a certeza do cancelamento. As equipas estão a ter custos acrescidos na preparação da prova (que pode bem não se realizar), algumas delas separando o grupo de trabalho. E o organizador pode acabar com um desfalque financeiro enorme visto que terá um aumento enorme de despesas (material de protecção e desinfecção, evitar aglomerações, realização de testes a vários elementos) e pode ter praticamente nenhum proveito com isso, caso a prova seja cancelada após algumas etapas. Já para não falar dos ciclistas, esta (possivelmente falsa) esperança pode ter um impacto psicológico inimaginável.
Sim, existem mais dúvidas que certezas quanto a este tema e certamente que isso não ajuda. Gostaríamos muito que a Volta a Portugal fosse para a estrada, no entanto reconhecemos que neste momento é preciso um pequeno milagre para isso acontecer e para a prova decorrer com normalidade até ao fim e isso é um drama terrível para uma actividade que já está habituada a viver no limbo e, até certo ponto, debaixo de uma precariedade asfixiante.
Foto: João Fonseca